
Perfume? Sim, pode colocar.
Bem arrumada, a pessoa da frente na fila do petshop pergunta para a atendente se tem algum petisco que não tenha cheiro. Ela estava buscando o seu cãozinho do banho e tosa e não queria que ele se ‘sujasse’ comendo, “agora que estava ‘limpinho’”.
Quando abrimos a mente para examinar aquilo que consideramos “normal”, percebemos que a nossa relação com outros animais é marcada por escolhas que priorizam conveniência e vaidade humana sobre a experiência do animal. Isso se manifesta em práticas ditas inocentes e de cuidado, como levar seu cão a um banho e tosa, até animais que decidimos conscientemente ignorar suas existências, os ditos de consumo.

Entrar em uma petshop com essas lentes acaba por ser uma experiência perturbadora. A petshop deveria ser um espaço onde se cuida dos animais, mas na verdade eles são nesses espaços apenas mercadorias, vivas ou mortas. Vendemos eles vivos para servirem de objetos de companhia, status e ornamento. Vendemos eles mortos para alimentar esses vivos que dizemos amar. Mas amamos mesmo?

Sem dúvida não estou falando dos animais regatados, estes já foram vítimas do completo descaso da sociedade, que os domesticou, reproduziu e depois os descartaram como meros objetos sem valor. Protetoras de animais se desdobram para salvar estes animais e chegam a fazer o impossível para aliviar o seu sofrimento e lhes dar um pouco de afeto. Mas são muitos. São 20 milhões de cães abandonados no Brasil. Ah…se cada uma dessas pessoas que diz gostar de animais adotasse um! Teríamos resolvido o problema de cães abandonados no país!
Não, não estou falando destes. Estou falando daqueles que são objetos de compra, que são comprados como qualquer mercadoria. Os mesmos que, em boa parte, serão abandonados depois para, se tiverem sorte, serem resgatadas por alguma protetora que sofre de diversos problemas financeiros e esgotamento físico e mental. Os fazemos reproduzir, para depois criar um comércio ao redor do ‘ter um pet’, baseado na exploração de outros animais. Poderia aqui relatar as condições terríveis que as “matrizes” são mantidas para gerar esses filhotes fruto do desejo humano, mas o foco aqui vai além. Quem nos deu o direito de explorar essas cadelas em primeiro lugar? Como podemos tratar um ser que dizemos que amamos como mercadoria?

O que chamamos de raça é o resultado da seleção artificial humana que prioriza traços estéticos e que achamos ‘úteis’ em detrimento da saúde e da funcionalidade do corpo do animal. Raças como pugs e bulldogs, por exemplo, apresentam conformações cranianas que frequentemente causam problemas respiratórios graves e outras complicações de saúde crônicas, simplesmente porque assim “parecem fofos” para muitos humanos. Assim, criamos aberrações, seres inocentes que irão sofrer apenas por estarem vivos e apenas para suprir a vaidade humana. Puro narcisismo.

No banho e tosa, latidos frenéticos, gaiolas minúsculas, temperaturas extremas. Cães que em casa dormem em caminhas fofas, são mantidos acorrentados diante de secadores superquentes por longos períodos, causando, inclusive, queimaduras.
Esse estresse não é trivial. Um estudo avaliou cães antes, durante e após procedimentos de banho e tosa. Os resultados mostraram aumento de níveis de cortisol (hormônio indicador do estresse) em 61% após o banho e aumento de cromogranina A (proteína produzida pelo sistema endócrino e marcadora do estresse) em 55% mesmo antes do início, além de sinais comportamentais de estresse que se intensificaram durante a secagem, especialmente com o uso do soprador. Os pesquisadores concluíram que os procedimentos de banho e tosa geram estresse na maioria dos cães e que fatores ambientais do estabelecimento podem representar riscos à saúde animal¹.

O uso de shampoos e fragrâncias perfumadas, selecionado pelo gosto estético do humano, soa completamente deslocado quando considerado do ponto de vista sensorial do cão. O olfato dos cães é dezenas de vezes mais sensível que o nosso — o que para nós é “cheiro agradável”, para eles representa uma sobrecarga sensorial extremamente desconfortável e persistente. Isso revela uma concepção de cuidado que não se fundamenta na perspectiva do animal, mas sim nas preferências de quem o possui.
Pessoas que afirmam amar seus cães muitas vezes não se perguntam como é para eles. Mas por quê?
Por trás de toda essa lógica do mercado pet está o especismo — a crença de que os outros animais estão aqui apenas para nos servir. Essa ideologia permeia nossas instituições, leis, cultura, costumes,… levando a naturalização na sociedade de tratar animais como meras propriedades a nosso dispor. Enquanto isso, a indústria pet só cresce, seja em venda de animais vivos ou mortos. Eles lucram, os animais sofrem e você ainda pode dizer que ama os animais.
O respeito começa quando deixamos de olhar para os outros animais como meras coisas ao nosso dispor. Quando reconhecemos que eles têm valor, experiências e perspectivas próprias — que não existem para nos servir ou entreter — começamos a reavaliar práticas arraigadas como banho e tosa, raças, compra de animais, e o gigantesco mercado de animais mortos, e a buscarmos alternativas neste mundo tão injusto.
Referência:
[1] Maria, A.C.B.E. (2015). Estresse em cães durante o banho e tosa: análise de marcadores biológicos salivares, parâmetros fisiológicos e comportamentais e fatores ambientais predisponentes. Universidade de São Paulo. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/002752614