
As ONGs, coletivos e institutos abaixo, com o objetivo de intervir de forma qualificada no debate público desencadeado pelo crime cometido contra o cão Orelha, sistematizaram dez reivindicações principais:
1. Federalização para apuração policial rigorosa de todos os suspeitos de envolvimento no caso do Orelha (incluindo o histórico de agressão e envolvimento com crimes cibernéticos de tortura), responsabilização de TODOS os envolvidos e investigação das tentativas de intimidação.
2. A quebra de sigilo imediata de todos os documentos, vídeos e provas, preservada, de acordo com o ECA, a identidade dos adolescentes. (Dentro desses limites, ela não só é legal, como deve ser determinada pela Justiça para garantir a ordem pública e a efetividade da investigação, impedir coação de testemunhas e interferência no andamento da apuração por indivíduos com poder econômico e político. O sigilo nestas circunstâncias compromete a investigação e favorece a impunidade, sem garantir proteção legal dos envolvidos).
3. Garantia da proteção às testemunhas com a preservação de seus sustentos no caso de serem trabalhadores.
4. No campo jurídico, reconhecimento do crime de maus-tratos contra animais, devidamente tipificado na legislação penal, como crime hediondo. (Embora já exista iniciativa legislativa nesse sentido — a exemplo do Projeto de Lei nº 2.475/2025 —, sua redação limita a classificação como hediondo exclusivamente às hipóteses em que a conduta resulte na morte do animal).
5. Reconhecimento dos animais como pessoas, a fim de equipará-los aos animais humanos, retirando-os do regime jurídico de bens, haja vista que pessoa é um conceito jurídico que não se restringe apenas a vida humana, prova disso, são as pessoas jurídicas. Estender o conceito de pessoa aos animais, possibilitará que nos crimes de maus tratos aos animais estes possam ser vítimas e não a sociedade, além de possibilitar que o crime de maus tratos aos animais sejam considerados GRAVES, pois são praticados com violência e grave ameaça; Desta forma, não será passível de acordo de não persecução penal e para aplicação das medidas socioeducativas de internação e de semi liberdade previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), já que atualmente, a medida de internação e semi liberdade encontra-se restrita a atos infracionais análogos a crimes cometidos mediante grave ameaça ou violência contra a PESSOA HUMANA, não abrangendo, portanto, os casos de maus-tratos e crueldade contra ANIMAIS.
6. Acompanhamento psicológico e psiquiátrico obrigatório para todos os casos envolvendo crueldade animal e criação de banco de dados de menores infratores e criminosos que tenham praticado maus tratos aos animais reconhecendo a importância da teoria do elo.
7. Regulamentação urgente das plataformas, das big techs e demais fóruns (como o Discord, Reddit e Telegram) para a proibição de veiculação de vídeos, fotos e lives de tortura animal online.
8. Inclusão, no âmbito dos currículos escolares, da abordagem transversal e interdisciplinar de conteúdos relacionados ao respeito aos animais, à proteção de seus direitos e à prevenção da crueldade contra animais, acompanhada da implementação de campanhas educativas obrigatórias e contínuas de conscientização dirigidas à comunidade escolar e à sociedade.
9. No campo administrativo, instituição de política pública permanente de controle populacional de animais, por meio de programas de captura, esterilização cirúrgica, acolhimento temporário para recuperação pós-operatória e posterior devolução ao local de origem, no modelo de captura–esterilização–devolução (CED), asseguradas as condições sanitárias e de bem-estar animal.
10. Apoio financeiro às ONGs e aos protetores devidamente comprovados como cuidadores de animais de estimação em situação de vulnerabilidade, com mecanismos de controle social, como a criação de conselhos comunitários para fiscalização participativa desses locais. Esse apoio deve ocorrer por meio da instituição de um Fundo de Proteção Animal, abastecido por recursos provenientes de multas por crimes ambientais e por um orçamento mínimo obrigatório dos governos federal, estadual e municipal, garantindo transparência, continuidade e efetividade na proteção animal.
Assinam:
Militância Antiespecista – @militancia.antiespecista
Grupo pela Abolição do Especismo Porto Alegre
Grupo pela Abolição do Especismo Rio Grande
ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais – @andanews
ONG Canto da Terra – @ongcantodaterra
Abolição da Crueldade equestre – @abolicaocrueldadeequestre
Instituto Thaís Vitto – @institutothaisviotto
Frente Nacional de Defesa dos Jumentos – @frentedefesajumentos
Grito Animal Rio de Janeiro
Dhuzati Antiespecista – @dhuzati
Coletivo Ecossistema – @coletivo.ecossistema
Comissão de Proteção Animal de Guarulhos
Coletivo Abolicionista Vozes em Luto – @vozesemluto
Papo do Quintal Podcast – @papodoquintalpodcast
Observatório de Justiça Ecológica da UFSC – @oje.ufsc
Associação Meninas Polinizadoras – @meninaspolinizadoras
Rosa Aérea Movimento Arte Alegria LTDA – @espacorosaaerea
VEDDAS – Vegetarianismo Ético, Defesa dos Direitos Animais e Sociedade – @veddas_ong
Macacos Urbanos UFRGS – @macacosurbanos
ONG Bendita Adoção – @ongbenditaadocao
SOS Amigo dos Animais – @sosamigodosanimais
Coletivo Vegans em Transição
AICA – Ativistas Independentes da Causa Animal – @aica.causa.animal
ACAPRA Direitos Animais – @acapra.direitosanimais
Instituto Sammy Aram – @institutosammyaram
O Lobo Alfa – @oloboalfaprojeto
Fofucinhos – @fofucinhos
ONG Vida Animal Livre – @vidaanimallivre
Rock Bicho – Associação de Proteção Animal de BH – @rockbicho
Sociedade Mineira Protetora dos Animais (SMPABH) – @smpabh
Coletivo Vegana – Amor e Respeito aos Animais
Veganos Voluntários – @veganosvoluntarios
30 Veganos – @30veganos
Coletivo Feminista Antiespecista Somos Todas Fêmeas – @somos.todas.femeas
Santuário para Bois Resgatados de Farra – @santuarioboisresgatadosdefarra
Projeto Patas em Ação – @ong_patas_em_acao
No dia 4 de janeiro, Orelha, um cão dócil cuidado por moradores da Praia Brava, foi brutalmente espancado por um grupo de adolescentes. Há vídeos que mostram seis adolescentes na praia, embora a polícia afirme que apenas quatro estariam diretamente envolvidos no assassinato de Orelha. Filhos da alta elite de Florianópolis, dois deles viajaram para a Disney logo após o ocorrido. A violência cometida contra Orelha foi extrema. Em razão dos ferimentos gravíssimos, incluindo a fratura da mandíbula, ele não resistiu e morreu durante um procedimento já na clínica veterinária. Além de Orelha, há provas de que os adolescentes feriram ao menos outros dois cães da Praia Brava, além de estarem envolvidos em diversos atos ilícitos na região. Familiares dos agressores ameaçaram o porteiro do condomínio por ele ter fotografado o ocorrido. Coagido, o porteiro foi obrigado a apagar a imagem, foi afastado compulsoriamente do trabalho e provavelmente perderá o emprego.
O que aconteceu com Orelha não é um caso isolado. É importante lembrar de episódios recentes como o cavalo de Bananal, que teve as quatro patas cortadas ainda vivo por seu “tutor”; a cadela Manchinha, assassinada em um supermercado em Osasco; o cão Sansão, que teve as duas patas traseiras decepadas; e mais de mil búfalas deixadas para morrer de fome e sede em uma fazenda em Brotas, no interior de São Paulo. Apenas no estado de Santa Catarina foram registrados 5.605 casos de maus-tratos contra animais em 2025. Esses são apenas alguns dos casos que ganharam notoriedade ou foram denunciados. Animais são brutalmente feridos, abusados, mutilados, explorados e assassinados todos os dias, e precisamos falar sobre isso.
Casos como o brutal assassinato de Orelha, assim como todos os demais aqui relatados, são consequência do especismo estrutural da nossa sociedade, que hierarquiza vidas e autoriza violências contra corpos animais simplesmente por serem animais. Esquecemos que nós também somos biologicamente animais e que sofrimento e felicidade são experiências compartilhadas. Assim, o poder econômico, se utiliza do especismo estrutural para legitimar o encarceramento em massa, o abuso, a exploração e o assassinato. Esse sistema de hierarquização de vidas é o mesmo que sustenta opressões baseadas em classe social, raça, gênero e espécie.
A Constituição brasileira veda os maus-tratos, mas, na prática, ainda tratamos animais como objetos, propriedades ou mercadorias, e não como os seres sencientes que são, dotados de dignidade e valor intrínseco. A mesma banalização da vida que levou adolescentes a espancarem um cão dócil como Orelha por diversão é a que sustenta a normalização da crueldade, do abuso e da exploração animal nos mais diversos âmbitos da nossa sociedade. Essa banalização da crueldade não é pontual; ela é sistémica. Por isso, precisamos urgentemente não apenas de leis que garantam, de fato, a proteção ampla de todos os animais, mas também de educação sobre direitos animais e especismo nas escolas.
O caso de Orelha reacendeu a revolta popular necessária para que haja mudança. O assassinato de Orelha não pode ficar impune.
Por Orelha, por todos os animais, por uma sociedade sem violência.